Leishmaniose oral e laríngea: aspectos clínicos, epidemiológicos e nutricionais

Brunna Crystynne Ferreira de Souza

Resumo


INTRODUÇÃO: A leishmaniose é considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma das cinco doenças infectoparasitárias endêmicas de maior relevância e um problema de saúde pública mundial. O termo leishmaniose refere-se à infecção de hospedeiros vertebrados com os protozoários do gênero Leishmania. Nas Américas, são atualmente reconhecidas 11 espécies dermotrópicas de Leishmania causadoras de doença humana e 8 espécies descritas somente em animais.

OBJETIVO: O objetivo deste trabalho é apresentar uma revisão atualizada sobre os aspectos epidemiológicos, clínicos e nutricionais da leishmaniose mucosa oral e laríngea. 

MÉTODO: Revisão da literatura nas bases de dados Scientific Eletronic Library On-line (SciELO) e Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline/PubMed), utilizando-se os descritores do tema em questão.

RESULTADOS: A leishmaniose é uma doença infecciosa de evolução crônica que pode apresentar-se como forma clínica visceral, cutânea, mucocutânea, mucosa e raramente difusa. A leishmaniose oral acomete em maior frequência os lábios e palato, podendo também estar presentes em úvula, gengivas, tonsilas e língua. São lesões caracteristicamente úlcero-vegetativas de aspecto granulomatoso, e os sintomas mais comuns incluem dor, disfagia e odinofagia. A desnutrição é um fator de risco reconhecido para o desenvolvimento de leishmaniose e o estado nutricional dos indivíduos afetados tem um papel significativo no prognóstico da doença, diminuindo a resposta imune e aumentando a carga parasitária. A leishmaniose laríngea encontra-se em terceiro lugar como sítio de aparecimento de lesões mucosa. Apesar de possuir baixa prevalência, o envolvimento da laringe na leishmaniose se encontra atualmente como parte do diagnóstico diferencial de lesões laríngeas. Dentro os principais sintomas presentes em caso de envolvimento faringolaríngeo destacam-se a disfagia, dispnéia, disfonia, dor de garganta e tosse.

CONCLUSÃO: O diagnóstico precoce de lesão mucosa é essencial para que a resposta terapêutica seja mais efetiva e sejam evitadas as sequelas deformantes e/ou funcionais. Lesões orais e laríngeas geralmente são tratadas com tratamentos tópicos ou sistêmicos, incluindo injeções intralesionais, antimoniais e anfotericina B. A suplementação alimentar pode promover benefício em pacientes com leishmaniose, melhorando a resposta imunológica e a reparação tecidual.


Palavras-chave


Leishmaniose, Leishmaniose oral, Leishmaniose laríngea, nutrição.

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